ecosdelonge

Um diário fractal, de pensamentos não lineares, múltiplos, idéias que vêm de longe e ecoam no espaço virtual, ecos fragmentados de mil pensamentos que proliferam na minha horta particular, onde não há monoculturas. Esse blog, um jardim onde "mato" também pode ser "flor"! Um sítio arqueológico, uma galáxia ou... apenas uma pétala da Rosa de Hiroshima exalando o perfume da Vida que renasce sempre, apesar de todos!

Wednesday, September 07, 2005

O RIZOMA E AS ECOVILAS
Uma utopia necessária

A metáfora da árvore torna-se incipiente, não constitui mais uma imagem adequada em relação ao complexo processo do pensamento humano. Embora orgânica, a metáfora da árvore é um paradigma superado, pois o pensamento não é “arbóreo”. Os muitos saberes, ou ramos do conhecimento saindo todos do tronco (as especializações), sempre remetem ao tronco, na busca de uma unidade perdida, numa tentativa desastrada de recuperar a totalidade. Com bases firmadas na metáfora da árvore, o conhecimento vem sendo compartimentado, hierarquizado, de forma estanque.
Na metáfora tradicional, a estrutura do conhecimento é vista como uma grande árvore, cujas raízes devem estar fixadas nas premissas verdadeiras (o solo firme), e cujo tronco sólido se ramifica em galhos (aspectos da realidade). Mesmo sendo uma metáfora botânica, tal paradigma ainda é uma representação da concepção mecânica, que reproduz a fragmentação cartesiana do saber.
Tal modelo se sobrepõe ao conhecimento, como uma forma de classificá-lo, de facilitar o acesso e o domínio, e mesmo determinar a estrutura de novos conhecimentos, entretanto o pensamento e o conhecimento não seguem a estrutura proposta. Na verdade, no pólo da escrita, o paradigma arbóreo nada mais é que o fruto das tecnologias do conhecimento, em suas tentativas de circunscrevê-lo.
O pensamento não é arborescente, nem tampouco o cérebro uma matéria enraizada nem ramificada. “O cérebro é uma multiplicidade que mergulha, em seu plano de consistência, num sistema de incerteza probabilística”. Há uma “intimidade caótica” no funcionamento cerebral, que a cada dia é mais esclarecida pela ciência contemporânea.
A ecologia é a primeira manifestação de uma ciência que não pode ser inserida no contexto da disciplinarização clássica; irrompe na intersecção dos diferentes campos, como a Biologia, a Geografia, a Ciência Política, a Sociologia e mesmo a Filosofia. Por essa razão vem acelerar as mudanças de paradigmas de como se dá o processo do pensamento humano, requisitando para tal, novas imagens que nos permitam ir além da fossilização imposta pela metáfora arbórea.
Dois grandes pensadores atuais, Deleuze e Guattari propõem a metáfora do rizoma, em contraponto à metáfora da árvore. A imagem tomada é a daquele tipo de caule radiciforme de muitas espécies vegetais, que é formado por miríades de pequenas raízes emaranhadas em meio a pequenos bulbos. As inúmeras linhas fibrosas de um rizoma se entrelaçam, remetem umas às outras e também para fora do conjunto. “A imagem do rizoma não se presta nem a uma hierarquização nem a ser tomada como paradigma, pois não há um rizoma, mas rizomas; na medida em que o paradigma, fechado, paralisa o pensamento, o rizoma, sempre aberto, faz proliferar pensamentos”.
Os princípios básicos do rizoma, entre eles, a conexão, a heterogeneidade e a multiplicidade, o torna uma imagem única, que possibilita uma nova percepção do real, não mais a hierarquização do conhecimento em compartimentos estanques, mas múltiplas possibilidades de conexões, cortes e percepções. Não mais a necessidade de retomar uma unidade perdida, mas sim a possibilidade de trânsito livre entre os saberes. As estruturas conceituais deixam de ser prisões rígidas que enclausuram o pensamento, podendo ser facilmente rompidas. As linhas de fuga são múltiplas e apontam para novas e insuspeitadas direções. O rizoma é sempre um rascunho, um “devir”, um mapa a ser traçado a cada novo instante. Pode ser mapeado, cartografado, numa espécie de cartografia com “entradas múltiplas”, podendo ser acessado de infinitos pontos. Não mais a lógica da cópia e da reprodução, mas sim uma riqueza geográfica insuspeita, pautada pela lógica do “devir”, da exploração, da descoberta de novas facetas. “A árvore paralisa, copia, torna estático; o rizoma degenera, faz florescer, desmancha, prolifera”.
As implicações são profundas, podendo significar uma revolução nas formas pelas quais pautamos as nossas ações educacionais, por exemplo, e os modos pelos quais percebemos a própria realidade. Os saberes são campos abertos com horizontes sem fronteiras pelos quais podemos transitar livremente, ou realizar caminhos insuspeitados e inusitados.
O rizoma é a matriz perfeita que promove a articulação dos saberes, abre portas, abrindo um diálogo incomum entre os saberes. Muda a forma pela qual entendemos o conhecimento, implicando na adoção de uma nova abordagem, na qual o saber passa a ser uma “função”, “eu funciono”. Utilizando os pólos tecnológicos da oralidade e da escrita, o rizoma se presta às mudanças pelas quais lutamos. Por meio de suas linhas de saída múltiplas, podemos facilmente “desconstruir o real”; colocar em cheque os modos de viver da sociedade de consumo, as maneiras de organização do espaço, a arquitetura das grandes cidades e os valores imediatistas; trazer à reflexão os projetos ecológicos das ecovilas, verdadeiros rizomas: agrupamentos de proporções humanas, pipocando no pluralismo de uma ampla diversidade cultural, espiritual, sócio-ambiental; nunca compartimentadas, mas multifacetadas, singulares em sua multiplicidade heterogênea.
Pensando cada vez melhor e sentindo cada vez mais, podemos trabalhar para derrubar as nossas fronteiras internas; as prisões temáticas. Pois, de que forma estaremos aptos a pensar nossas ecovilas, senão quando pudermos efetivar conexões, aproximações, cortes, pelo rompimento com as hierarquias fechadas do pensamento mecanicista e reducionista que há tanto tempo nos aprisiona?
De que forma iremos compreender o funcionamento dos ecossistemas, se nos mantivermos paralisados por um saber disciplinarizado, guardado nos túmulos de abordagens científicas equivocadas, inaptos a realizar ações efetivas para mudanças concretas, nos transformando em seres que “funcionam” adequadamente, em sintonia com a vida planetária?
Afinal, somos seres que devem funcionar em sintonia com os complexos e singulares sistemas vivos que constituem o corpo da nossa Mãe Terra, mas infelizmente, estamos em franca oposição à vida, pelos modos pelos quais nos relacionamos com esse ser vivo que é o planeta água.
Por mais utópica que nos pareça a abordagem rizomática do conhecimento, ela nos remete a outra utopia: os projetos ecológicos da Rede Mundial de Ecovilas, uma discussão mais do que necessária, urgente.
Mas... Um horizonte não é algo que possa ser alcançado, está sempre em expansão, entretanto, não é justamente o horizonte que nos instiga, nos convida a caminhar?
Utopia é isso: perseguir a linha do horizonte, sem nunca jamais se cansar, aproveitando ao máximo, as belezas que descobrimos ao caminhar. Portanto, não lhe parece extremamente necessária, tal utopia?

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