ÁGUA
É quase ao entardecer, e as tintas do céu vão do ocre ao rubro; uns filetes de nuvens decoram o sol.
Uma trilha sinuosa se bifurca; sobe a montanha.
Perde-se entre as rochas coroadas de florezinhas índigo.
Há um espasmo longo das horas.
Pareço em êxtase; avisto um vale longe, onde há uma colina.
Paro na bifurcação e ouço o rugido das águas se despencando arrojadamente.
Penso: "ah! as águas não temem a queda! Como são fluidas e leves"! Qual asas de borboletas, as delicadas gotinhas saltam contra as rochas. Orgásmicas, pulsam!
Gotículas, fractais de luz, pulsares, cantam ruidosamente, milhões, descendo juntas pelo penhasco... e depois?
"Ora, vejam, o que encontro? Um veiozinho d'água numa fonte mais abaixo... e como é mansinho, fresco e doce"!
"Sabe, Águia da Floresta, você que voa tão alto, acima dessa alta montanha, que lhe parece a doce água que teu bico bebe"?
"Ah! ... que bom! Estar aqui... Isso é prece contínua! Meditação"! Toco de leve a pluma da água e bebo.
Tão pura!! Que bom... Lentamente... dispo-me; caminho até a cascata. Deixo-me banhar.
Um resto de sol põe rosas na cachoeira.

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